As Raves explodiram em 1988, (as primeiras
raves acontecem em Manchester, na Inglaterra, em fins de 1987 e início
de 88). Logo após, o fenômeno se espalha pela Alemanha, principalmente
Berlim. Nos EUA (New York), as festas raves chegam em 1991/92. Mas toda a
cena da Inglaterra no final dos anos 80 era chamada de acid house
party, a terminologia “rave” não existia. O conceito rave, nascido no
final dos anos 80 e advindo da produção da música eletrônica, foi
formatado em festas em espaços abertos fora do perímetro urbano das
cidades ou em galpões abandonados da periferia, ao som da música
eletrônica. A primeira festa Rave no Brasil aconteceu em 1992 e foi
batizada com o nome de Jeneration. A festa foi amplamente encampada pela
mídia e pelo patrocinador (uma marca de jeans). A festa aconteceu no
estádio do Pacaembu em São Paulo.
As Raves no Brasil
Quando se busca a cronologia da cena
eletrônica no Brasil, mais precisamente as datas das primeiras festas
raves (indoor e outdoor), os locais, estilo e duração, podemos dizer
que… “Houston, we’ve got a problem”.
Há quem diga que o primeiro projeto para
uma rave no Brasil aconteceu em 1995 em São Paulo, trazido pelas mãos do
DJ Dmitri. Com ele o ambiente psicodélico, a música repetitiva e a
influência das festas que aconteciam não só na Europa, mas também nos
EUA e, principalmente, em Goa, na Índia, começavam a ganhar um pouco
mais de notoriedade à medida que atraíam novos adeptos e seguidores.

A LM Music, considerada a primeira rave
Urbana, aconteceu em 1992, passando pelas cidades de São Paulo, Curitiba
e Porto Alegre. No line-up, além das primeiras iniciativas de decoração
com laser, DJs como Moby, Altern8, Mau Mau, Alex S e Mark Kamins
marcaram a história da cena de música eletrônica no Brasil.
Depois de um tempo na Europa, em seguida
uma temporada de quatro meses em Goa, André Meyer pode ser considerado
um dos precursores da cena trance no Brasil. Durante 1994 e 1995, juntos
com amigos e curiosos, André dava início ao que seria atualmente mais
do que um estilo de música, um estilo de vida.
“A primeira festa que organizamos rolou no
ano 1994, em Atibaia, São Paulo, e lembro que tivemos muita dificuldade
para trazer o equipamento de som. A gente tirava cópias do flyer para
fazer a divulgação e fazia um rateio para bancar a gasolina do gerador”,
comenta André. Ele explica que naquela época não era tão simples
arranjar a locação de aparelhagem como hoje. Não havia moldes, sequer
estrutura; o combustível era a própria vontade de se criar um ambiente
diferente e propiciar uma sensação inusitada à galera que comparecesse.
E deu certo! Basta acompanhar a cena e as
multidões que se formam para prestigiar festas como o festival Universo
Parallelo e XXXperience, só para citar algumas.
André Meyer, além de trabalhar como body
piercer também toca informalmente como DJ e foi co-fundador do club
Klatu Barada Nikto; com a mesma proposta até hoje e aberto todas às
quintas na noite paulistana.
Iniciativas como o projeto WTF (World
Trance Family) também contribuíram bastante para a evolução dos estilos
dentro da cena, em meados da década de 90. Wagner J. que é integrante do
projeto, em entrevista ao portal Terra, comenta que a essência foi,
sim, trocada pela oportunidade de se ganhar dinheiro. Esclarece que a
comercialização é inevitável, e em contrapartida isso de forma alguma
anula o movimento underground, pulsante nas grandes metrópoles.
Em entrevista ao Psyte, o grego Pan
Papason, considerado pioneiro do movimento e da música psicodélica no
Brasil e no mundo, nos conta como foi essa experiência e suas
impressões: “No final da década de 80, estrangeiros vieram de Goa para o
Brasil. Alemães, Italianos, Suíços, gente do mundo todo que morou em
Goa durante um tempo e veio parar no sul da Bahia, em Trancoso, por
volta de 1986/87. Com eles chegaram também as primeiras fitas DAT,
algumas lâmpadas ultravioleta, além dos tecidos psicodélicos com Deuses
indianos pintados. Ninguém conhecia aquelas cores, o trance, tudo era
novidade”.
Pan foi parar em Londres em 1992, deixando
assim sua terra natal para começar a discotecar em pequenas festas
after-hour. Em 1993, já em Goa, ele continuou a tocar na cena noturna e
em 1994, durante sua a viajem ao Chile, ajudou a organizar a primeira
festa rave no local. “Eu e alguns amigos estávamos espalhando a cultura
psicodélica pela América do Sul, realizando festas no Peru e no Chile.
Inclusive foi no Chile, que organizamos a primeira festa trance durante
um eclipse solar. Do Chile viemos parar no Brasil, onde chegamos até o
Arraial D´ ajuda para encontrar algumas pessoas que também conheciam o
trance”.
No reveillon de 1994 para 95, Pan e seu
grupo organizaram o primeiro festival, se é que podemos chamar assim,
rolando durante dois dias, com cerca de 400 pessoas presentes dançando
ininterruptamente. Tudo muito roots, a divulgação era feita com flyers
escritos a mão, xerocados. “Mandamos até para nossos amigos na Europa,
que vieram para o reveillon”, comenta Pan.
Mas qual seria o motivo capaz de fazer um
grupo de pessoas, centenas, milhares, talvez, se reunirem em torno de
caixas de som para curtir muitas e muitas horas ao som de uma música
repetitiva, bastante alta e um tanto quanto esquisita, numa época em que
nada disso era divulgado?
“O trance para alguns é um modo de vida.
Se você morar na Índia por seis meses, já começa a agregar toda aquela
cultura. Tem um determinado dia no ano, que os indianos saem na rua
jogando tinta colorida uns nos outros. São muitas pessoas coloridas
correndo, cantando e dançando. As cores das festas raves vieram desta
cultura, os Deuses coloridos, sem contar a espiritualidade do povo e a
própria música indiana. Tudo foi transferido para o trance”. Segundo
Pan, isso justifica muita coisa. Em São Paulo, as festas começaram em
94/95 e eram bem pequenas, algumas até indoor. Quando no final dos anos
90 surgiu o club Klatu, explica o DJ e produtor.
A cultura rave começou de fato no início
dos anos 90, principalmente na Inglaterra, porém o conceito “rave” teve
origem pelos menos 10 anos antes, junto com as primeiras produções
eletrônica provenientes de qualquer gênero que se propusesse a produzir.
Sendo as festas organizadas longe do perímetro urbano ou em galpões e
espaços abandonados, o som era o techno e a droga consumida, o Ecstasy.
Tão importante quanto a cena rave e sua
configuração atual, a cena acid house surge na Inglaterra como a
primeira concepção de festas regadas a música eletrônica e LSD (Ácido
Lisérgico). Não diferente do que acontece hoje, o principal catalisador
do movimento foi a cobertura sensacionalista dos meios de comunicação,
que ao invés de afastar o público, causava um efeito oposto. Multidões
de até 15 mil pessoas reuniam-se nos campos ingleses para curtir a
novidade e descobrir por si o que realmente se tratava.
Após “bombar” de tal forma, várias festas
começaram a pipocar por toda parte, chamando assim a atenção das
autoridades britânicas que imediatamente criaram uma legislação
específica para vetar festas fora da cidade, com a inserção de “música
repetitiva”.
De acordo com a pesquisadora inglesa,
Sarah Thornton, o efeito gerado pelo pânico moral sugere um conflito
entre cultura jovem e mídia. Isso porque a juventude rejeita a aceitação
de sua cultura pela imprensa justamente por se tratar de uma cultura
rebelde e, portanto, não deve ser simplesmente aprovada pela mídia. Por
outro lado, segundo Thornton, os estudos culturais tendem a posicionar a
cultura jovem como inocentes vítimas das versões negativas da mídia,
quando a mesma retrata a cultura jovem como qualquer outro produto de
mercado, vendável.
O sociólogo espanhol Manoel Castells
explica no primeiro volume da trilogia, “Sociedade em Rede – A era da
informação: Economia, Sociedade e Cultura”, que as redes interativas de
comunicação estruturam uma nova geografia de conexões e sistemas
culturais e sociais. Traduzindo, esse fenômeno dentro do contexto atual
gera além de fórum de discussões sobre os mais variados estilos música,
também, comunidades, grupo e sub-grupos de outras tribos cada vez mais
desterritorializadas e amorfas. Delas resulta o mundo “virtual” que hoje
chamamos de cibercultura. Sendo assim, criando a possibilidade de
formatar festas ou PVT’s (festas para um número menor de pessoas) em
qualquer espaço com qualquer estilo de música eletrônica. O acesso à
música, equipamentos de som e divulgação é perfeitamente viável usando
uma ferramenta simples como e-mail, sites e comunidades virtuais.
Confira a seguir uma lista de alguns
estilos de música eletrônica mais populares e uma breve descrição sobre
cada um deles. Perceba que as vertentes estão sempre em mutação, dessa
forma, é interessante buscar outras fontes, como produtores, para
perceber e entender a sutileza de cada som:
-
Sub-Estilos da música eletrônica comumente tocados em Raves
- Ambient Music
Seu crescimento acontece no início dos
anos 90, mas suas origens remetem a Brian Eno, nos anos 70, com sua
música minimalista. Música basicamente de texturas, sem batidas, com
notas longas e etéreas, melodia lenta (quando aparece algum ritmo está
‘desaceleradíssimo’), não voltada para as pistas. Usada em situações
chill out, relaxamento. Uma das características desse estilo é, às
vezes, a citação de sons do ambiente (vento, mar, barulhos caseiros,
vozes…). Há o Illbient que é a versão dark, negra, sombria, da Ambient
Music. O Illbient tem como local de referência Nova York e como
principal expoente o dj Spooky.
-
- Big Beat
Acelerando as batidas quebradas do hip hop
e as vezes fundindo com as do funk, esse estilo pode incluir distorções
de riffs de guitarras. É o som mais acessível da eletrônica e se
assemelha ao rock.
-
- Chill Out
Relaxamento e reflexão. Ambiente com música menos acelerada, um pós-agitação das pistas de dança. Pode ser na casa de amigos.
-
- Dub
Originado das experiências dos negros da
Jamaica, ainda nos anos 60, tendo a frente o produtor Lee Perry, que
destaca a montagem e a técnica como fundamentais para o resultado da
música. É a tecnologia definindo a estética. O Dub eletrônico utiliza
timbres do Reggae, com batidas lentas, reverberadas e efeitos etéreos. O
delay (distorção que faz com que o som ganhe uma textura de
espacialidade, de trimidensionalidade) é um elemento importante do Dub
eletrônico. Pode ter vocal.
-
- Gabba
É o estilo mais hardcore (pesado e rápido) da eletrônica. Baseado na batida house e techno, o Gabba chega a 300, 400 bpm’s.
-
- House
Nascida em Chicago (EUA), em 1986, esse
estilo saiu da fusão, por parte do dj Frankie Knuckles, de elementos da
soul music com a disco e batidas das baterias eletrônicas. Daí, surgem
sub-gêneros como o Garage (com bastante vocal gospel), e o Deep House (o
sub-gênero mais elegante do House, com linhas melódicas, melancólicas e
minimalistas acima das batidas), o Jazzy House (batidas com um
instrumento solo – quase sempre um sax virtuoso -), dentre outros (Acid
House, Disco House, Tribal House, French House). 110 a 128 bpms.
-
- Jungle/Drum’n bass
Saído dos guetos negros de Londres, em
1992, esse estilo associa os baixos do reggae, com as batidas do hip
hop, e às vezes funk, com o jazz. O Drum’n bass, menos pesado, mistura
as linhas de baixos a uma temática mais jazzy, menos quebrada, com
vocais minimalistas. Em torno de 160 bpms.
-
- Live P A (Live Power Amplification)
É a performance, a apresentação ao vivo, do grupo ou de músico eletrônico em clubes, festas e raves.
-
- Techouse
Sobreposição da batida techno sobre a
house. Vertente nascida recentemente (1997). Do house, conserva, às
vezes, curtas linhas melódias e a batida com hithat e claps (pratos e
aplausos); do techno conserva as batidas 4 por 4. Por volta de 130 bpms.
-
- Techno
Originado em Detroit (EUA), no início dos
anos 80. Derrick May, Kevin Saunderson e Juan Atkins fazem uma fusão
entre o som de Kraftwerk e batidas funks de George Clinton. O resultado é
uma batida seca, repetitiva, 4 por 4, sem vocais. O Kraftwerk é
considerado um grupo Prototechno, por ser referência à produção da
Techno Music. 130 a 140 bpms.
-
- Trance
Criado na Alemanha, já é uma derivação do
techno. Texturas se sobrepõem às batidas e o baixo tem timbre bastante
sintetizado e menos seco. Som viajante. O hard trance acelera as batidas
para 150 bpm e o psytrance (em torno de 138/145 bpms) aumenta as
camadas de texturas e efeitos sonoros e mistura com trechos de sons
étnicos indianos. Pode usar grooves, as levadas do house ou do techno.
-
- Trip Hop
É o blues do techno. Melodias triste, com
batidas desaceleradas, geralmente cantadas. A base é o hip hop, só que
com efeitos lisérgicos e as vezes até de distorção. A voz, masculina ou
feminina, pode ser processada por filtros e parecer mecanizada. Sua
origem é Bristol (Reino Unido) em 1991. Em torno de 65 a 85 bpms.
-
- Techno pop / Dance
Som baseado nos anos 80 e que teve como
expoente o Depeche Mode e o New Order. Música com letras (início, meio,
fim e refrão), numa referência à canção tradicional. É pop, com teclados
que produzem muita melodia, mas a batida é bastante dançante.
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