Pra quem não conhece, Terence McKenna foi um pesquisador de plantas
psicodélicas de projeção internacional. Nasceu no Colorado (Estados
Unidos) em 1946, graduou-se pela Universidade de Berkley e obteve
mestrado em Xamanismo e Conservação de Espécies Botânicas. Em 1992
publicou o livro “Food of the Gods” (“Alimento dos Deuses”), onde
descreveu a evolução humana a partir do consumo de substâncias como o
DMT e a psilocibina, encontrada em cogumelos alucinógenos. McKenna
morreu em 2000 e é considerado por muitos como um “cientista da Nova
Era”. Esta entrevista foi concedida a revista OMNI em 1993.
A entrevista foi traduzida parcialmente pelo pessoal do blog mundocogumelo e pode ser encontrada integralmente (sem tradução) aqui, post original neste link.
OMNI: Para que servem suas pesquisas com substâncias psicodélicas?
MCKENNA: É uma tragédia pensar que alguém pode ir para o caixão
ignorante das possibilidades da vida. E faço analogia com o sexo.
Poucas pessoas podem evitar, em suas vidas, uma experiência de natureza
sexual, já que sexo é uma das informações de que a condição humana
dispõe. Sexo é um grande prazer, sexo liberta. Detesto pensar que alguém
pode morrer sem experimentar sexo! O mesmo acontece com a experiência
psicodélica. Ela é parte legítima da condição humana. Ela disponibiliza
uma infinidade de informações fundamentais que perdemos quando o homem
passou a se distanciar da natureza.
OMNI: “Food of the Gods” liga DMT à psilocibina. Qual a relação?
MCKENNA: A psilocibina e o DMT são quimicamente da mesma
família. Meu livro é sobre a história das drogas; mostra o impacto
cultural e o poder de desenhar a personalidade que elas possuem. As
pessoas têm tentado, sem sucesso, responder como nossas mentes e
consciências podem derivar do macaco. Já formularam todo o tipo de
teoria sobre isso, mas para mim a chave que destranca este grande
mistério é a presença de plantas psicoativas na dieta do homem
primitivo.
OMNI: O que o levou a concluir isto?
MCKENNA: A teoria ortodoxa da evolução nos diz que pequenas
mudanças adaptativas de uma espécie acabam sendo geneticamente impressas
em seu DNA. Os descendentes da espécie vão acumulando novas mudanças
adaptativas, até que o conjunto de mudanças gere outra espécie.
Pesquisas de laboratório mostram que a psilocibina, mesmo ingerida em
quantidades muito pequenas, é capaz de imprimir mudanças em nós. Nos
anos 60 Roland Fisher, do National Institute of Mental Health, deu
psilocibina a voluntários, e então realizou testes oftalmológicos. Os
resultados indicaram que a visão periférica aumenta quando havia
psilocibina no organismo do voluntário.
Bem, o aumento da visão periférica seria de grande ajuda adaptativa para
o hominídeo, pois caçavam com mais sucesso e se defendiam melhor,
também!
Então aqui temos o fator químico: quando adicionado à dieta,
psilocibina resultou num excelente “artefato” de sobrevivência.Quando os
macacos desceram das árvores encontraram cogumelos no solo. Em pequenas
quantidades aumentou sua capacidade visual periférica; em maiores
quantidades, aumentou as atividades de seus sistemas nervosos centrais,
que resulta em maior atividade sexual e, conseqüentemente, descendentes
que carregam genes modificados pela psilocibina.
OMNI: Como as informações disponíveis sobre a psilocibina sustentam sua teoria?
MCKENNA: Bem, este é o problema: a psilocibina foi descoberta
em 1953, e não foi totalmente caracterizada até ser proibida, em 66. A
janela de oportunidade que se abriu para estudá-la foi de apenas nove
anos. Quem pesquisava a psilocibina nem sonhava que os estudos seriam
proibidos pelo governo americano! Quando o LSD foi apresentado à
comunidade psicoterapêutica, e uma grande esperança de estudos dos
processos mentais e psicológicos se abriu, o governo suprimiu as
pesquisas com drogas psicodélicas. A conseqüência disto é que a
comunidade científica está capenga, pois não pôde cumprir sua missão de
conhecer profundamente os mistérios da mente humana. A ignorância e o
medo do governo atrapalharam o trabalho dos cientistas.
OMNI: Você está dando uma enorme quantidade de poder a uma droga. O que você pode dizer sobre a psilocibina?
MCKENNA: Ainda não sabemos tudo o que a psilocibina e o DMT
podem oferecer. É como quando Colombo avistou terra, e alguém disse,
“Então você viu terra. Isso é importante?”, e Colombo disse, “Você não
entende: este é o Novo Continente”. Então uns marinheiros, como eu,
retornaram da viagem dizendo, “Não há bordas no planeta, ele é redondo. E
mais: não há monstros marinhos, e sim vales, rios, cidades de ouro”. É
duro de engolir, mas caso possam voltar a estudar a psilocibina, os
cientistas poderão revolucionar a forma com que lidamos com o ser humano
e com o universo. Nos últimos 500 anos a cultura ocidental suprimiu a
idéia de inteligências desencarnadas, da presença real de espíritos. Mas
trinta segundos de viagem com DMT acabam com a dúvida. Esta droga nos
mostra que a cultura é um artefato, que você pode ser um psiquiatra em
Nova York ou um xamã em Ioruba, mas que essas realidades são apenas
convenções locais que organizam as pessoas em sociedade. A experiência
com DMT é universal, pois mostra do mesmo modo, para qualquer pessoa de
qualquer cultura, a legitimidade do universo espiritual.
OMNI: Bem, mas a cultura nos dá alguma coisa para fazer, Terence.
MCKENNA: Sim, mas a maior parte das pessoas acha que cultura é o
que é real. A psilocibina mostra que tudo o que você sabe está errado. O
mundo não está sozinho, não é tridimensional, o tempo não é linear, não
existem coincidências. Existe, sim, um nexo interdimensional.
OMNI: Se tudo o que sei está errado, então o que está certo?
MCKENNA: Você precisa reconstruir. É, no mínimo, uma tremenda
permissão para sua imaginação. Você não tem que seguir Sartre, Jesus,
ninguém. Tudo se esvai, e só o que você pensa é, “Sou apenas eu, minha
mente e a Mãe Natureza”. Esta droga mostra que o que existe do outro
lado é uma impressionantemente real forma de vida auto-consistente, um
mundo que permanece o mesmo toda vez que você o visita.
OMNI: E o que está lá nos esperando? Quem?
MCKENNA: Você cai num espaço. De alguma forma, você pode dizer
que é subterrâneo. Existe uma sensação de enclausuramento, mas ao mesmo
tempo o espaço é amplo, aberto, caloroso, confortável de uma forma muito
sensual, material. Há entidades totalmente formadas, não há dúvidas de
que essas entidades estão lá. Enquanto isso você diz, “Batimentos
cardíacos? Normais. Pulso? Normal.” Mas sua mente está dizendo, “Não, eu
devo ter morrido, é muito radical, muito, muito radical. Não é a droga,
drogas não fazem coisas assim”, e você continua vendo o que está vendo.
A droga nos tenta revelar qual a verdadeira natureza do jogo. Que a
dita realidade é uma ilusão teatral. Então você quer encontrar seu
caminho até o diretor que produz a realidade, e discutir com ele o que
acontecerá na próxima cena.
OMNI: Você dedicou boa parte de sua vida no mapeamento do DMT e da psilocibina. Como você os interpretaria?
MCKENNA: Estas substâncias podem dissolver numa única viagem
toda a sua programação mental até então. Elas te levam de volta à
verdade do organismo – a que diz que idioma, condicionamento e
comportamento são totalmente desenhados para mascarar. Uma vez dopado,
você renasce para fora do envelope da cultura. Você chega literalmente
nu neste novo lugar.
OMNI: Você acha que realmente existe algo como uma “bad trip”?
MCKENNA: Uma viagem que acaba te fazendo aprender mais rápido
do que você quer é o que as pessoas chamam de bad trip. A maior parte
das pessoas tenta dosar o aprendizado inerente às drogas, mas às vezes a
droga libera mais informação do que você é capaz de aprender. Para
piorar, a mensagem pode ser, “Você trata mal as pessoas!”, e ninguém
quer escutar isso.
OMNI: Como você pode defender as drogas com tanto entusiasmo quando elas estão associadas a tanto sofrimento e caos?
MCKENNA: Nós deveríamos falar da palavra êxtase. Em nosso
mundo, comandado pela Madison Avenue, êxtase é aquilo que você sente
quando compra uma Mercedes e pode bancá-la. Mas este não é o significado
certo. Êxtase é uma emoção complexa que contém elementos de medo,
triunfo, empatia e pavor. O que substituiu nosso pré-histórico conceito
do êxtase é a palavra “conforto”, uma idéia tremendamente asséptica,
letárgica. Drogas não são confortáveis, e qualquer um que pense que elas
são uma forma de conforto ou escapismo não deveria tomá-las até que
tenham coragem de lidar com as coisas como elas realmente são.
OMNI: Que tipo de pessoas não deveria tomar drogas?
MCKENNA: Pessoas mentalmente instáveis, sob enorme pressão, ou
operando equipamentos dos quais dependem as vidas de outros seres
humanos. Ou pessoas frágeis, ingênuas, superprotegidas. Algumas pessoas
foram tão estragadas pela vida que a dissolução de amarras não é boa
para elas. Essas pessoas deveriam ser cuidadas com carinho, e não
encorajadas a arrebatar limites. Se por fatores genéticos, culturais ou
psicológicos as drogas não são para você, então não são para você. Não
estou pedindo para que todas as pessoas tomem drogas, mas acredito que
assim como uma mulher deve estar livre para controlar sua fertilidade,
uma pessoa deveria estar livre para controlar sua própria mente.
Todos deveriam ser livres para tomar o que quisessem, e estar bem
informados sobre o que cada opção envolve. Exatamente como acontece com
educação sexual. Hoje a forma com que lidamos com informações sobre
drogas é a mesma como fazíamos nos anos trinta com sexo. Você aprendia
através de rumores! Então as pessoas acabam tendo idéias absurdas sobre
as coisas.
OMNI: Onde está sua esperança?
MCKENNA: Está na psicologia e nos jovens. Eles têm o que nunca
tivemos: pessoas mais velhas que já tiveram experiências psicodélicas. O
LSD tomou, e ainda toma, de assalto nossa sociedade. Dois estudantes de
bioquímica podem fazer um pequeno laboratório móvel e produzir, num
final de semana, de 5 a 10 milhões de doses de ácido para distribuir em
papel pelo mundo. Esta facilidade e discrição criou uma pirâmide de
atividade criminal de tanta potência que o governo reage como se um
revólver estivesse apontado para sua cabeça. O que, no fundo, é verdade!
A estratégia certa é subversão, atenção e discreto não-conformismo
contra o tédio e a opressão do mundo.
OMNI: Terence, meu amigo, existe alguma coisa que o deixa com medo?
MCKENNA: Loucura. As pessoas me perguntam, “Posso morrer
tomando esta ou aquela droga?”. É a pergunta errada. Claro que sempre
existe algum risco em qualquer coisa, mas o que é realmente perigoso é a
sua sanidade, porque como a desconstrução da realidade é infinita, você
pode se mudar para algum
outro lugar. Tenho medo de não ser capaz de contextualizar essa
desconstrução, me perder e não retornar à comunidade humana. Estamos
tentando construir pontes, não navegar infinitamente.
OMNI: Como você vê o futuro?MCKENNA: Se a história
seguir futuro adentro, será um futuro de escassez, preservação do
privilégio, controle da população através do uso cada vez mais
sofisticado de ideologia para acorrentar e iludir as pessoas. Estamos no
limite exato. O que também potencialmente nos aguarda é uma dimensão de
tanta liberdade e transcendência que, uma vez lá, viveremos de
imaginação. Seremos rapidamente irreconhecíveis se comparados ao que
somos hoje porque hoje somos definidos por nossas limitações: a lei da
gravidade, a necessidade de comer, de ficarmos ricos. Temos o poder de
nos expandir indefinidamente para o prazer, atenção, carinho e conexão.
Só precisamos nos libertar e nos permitir.
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