4 de dez. de 2012

Os Xiitas do Trance

Uma análise sobre a intolerância no mundo da música eletrônica e porque ela deve ser combatida.
[Update: este não é um artigo criticando o Psytrance nem os fãs de qualquer gênero da música eletrônica. É sim, uma reflexão sobre o comportamento preconceituoso de um grupo específico de pessoas. Nós do Psicodelia respeitamos e incentivamos todos os estilos de música eletrônica, especialmente o Psytrance, de onde surgimos. Também fazemos questão de incentivar todos os tipos de eventos, sejam eles comerciais ou não.]


Em fevereiro de 2001, o Taliban, que na época ainda governava o Afeganistão, decidiu  implodir duas enormes estátuas de Buda, esculpidas diretamente em uma montanha entre os séculos V e VI. Devido ao seu alto valor artístico e cultural, a obra era classificada como patrimônio da humanidade, mas graças à intolerância religiosa, veio à baixo. Esse triste  episódio da história recente é só um exemplo do que o extremismo(de qualquer tipo) é capaz de fazer.
Infelizmente, comportamentos e opiniões radicais não são exclusividade do mundo religioso. Entre os fãs de música eletrônica, também circula gente de cabeça fechada e opiniões um tanto quanto questionáveis. São pessoas que desprezam qualquer festa ou DJ que não se encaixe em seu gosto pessoal. Sua visão rasa de mundo de baseia na lógica “se eu não gosto, não presta.”
Apesar de existir gente assim em todos os segmentos da música eletrônica, notamos que uma parte maior (ou mais chata) se encontra entre os fãs de Psytrance, o que fez com que passassem a ser rotulados como “os xiitas do trance”, em uma referência direta ao grupo mais conservador e reacionário do mundo islâmico.
É claro que esse não é o comportamento da grande maioria dos fãs de Psytrance, grupo no qual eu me incluo, por sinal. Falo aqui apenas de uma minoria, que fica ali, geralmente escondida em meio aos demais, mas que de vez em quando saem para fazer barulho, especialmente na internet.
Eles costumam pregar o Psytrance(e suas vertentes) como a luz, a verdade e a vida, não admitindo  que outros estilos de música eletrônica coexistam ou possam ser fomentados. Em seu ponto de vista, qualquer coisa que não seja “Psy” não é digno de respeito. Qualquer festa com apelo mais comercial é automaticamente desprezada, independente de sua estrutura ou qualidade. Costumam inclusive criticar duramente qualquer pessoa que se declare fã do som que estiver na moda - como se o próprio Psytrance já não tivesse sido a bola da vez há algum tempo atrás.
E você, leitor do Psicodelia, certamente conhece alguém assim:
O deslumbrado dos festivais: esse tipo foi a um festival como o Universo Paralello e se deslumbrou com a quantidade de público alternativo que encontrou por lá. Entre hippies e praticantes de xamanismo, resolveu que isso sim é uma verdadeira festa. Qualquer coisa diferente, é uma porcaria, mesmo que seja um evento com estrutura para mais de 100mil pessoas, dezenas de palcos e centenas de DJs. Se em seu line up aparecem DJs famosos como Deadmau5, Tiësto e companhia, tudo se torna lixo. Nada mais importa.
A viúva de um tempo que não volta mais: é aquele cara que sempre solta a famosa frase “antigamente era legal. Hoje as raves acabaram, virou moda”. Note que o “antigamente” se refere há época em que ele conheceu a música eletrônica, geralmente há  4 ou 5 anos atrás. O que ele não fala é que quando ele começou a curtir já havia gente repetindo esse mesmo discurso. São pessoas incapazes de aceitar que a cena muda, evolui, assim como o mundo. Seja por sua incapacidade de se adaptar ou por um simples saudosismo babaca, costumam renegar qualquer coisa nova.
O exclusivista: gosta de vários estilos e festas, desde que só ele e mais meia-dúzia conheçam. A partir do momento em que algum DJ começa a ficar famoso, passa a renegá-lo totalmente, dizendo que “fulano se vendeu”, e em seguida migra sua preferência musical para outro estilo mais obscuro.
O hippie de shopping: já tomou muito LSD e se auto intitula o conhecedor da “verdadeira psicodelia”. Se veste como um hippie, se orgulha de ser “rooteza”, mas vive da mesada dos pais e gosta de pagar de maconheiro no facebook, postando diariamente fotos sugestivas às 4:20.
É preciso ser muito limitado intelectualmente para não perceber que a beleza da música está na mistura entre estilos. Qualquer pessoa que conheça um mínimo desse mundo  é capaz de perceber que nada existe de maneira isolada. Em algum momento, todos os estilos exerceram ou exercerão influência uns sobre os outros, muitas vezes gerando como fruto  outras vertentes totalmente novas.

Está tudo interligado. Entendeu ou quer que eu desenhe? (clique na imagem e veja o infográfico)
O próprio Psytrance, idolatrado pelos nossos xiitas, é decendente direto do Goa Trance, que por sua vez sofreu influências do rock psicodélico e do euro trance. Com o passar do tempo, o Psy se desenvolveu e criou características próprias, chegando posteriormente até Israel e ganhando o jeitão que conhecemos hoje.
Por isso, denegrir outros estilos, dizer que algo “é uma merda” pelo simples fato de não gostar desse algo, é uma atitude amadora e infantil, um argumento somente aceitável se você tiver 12 anos de idade ou menos.
Não existe estilo ruim, todos têm seu valor, propósito e lugar. O que existe, e isso sim, aos montes, são DJs bons e DJs ruins.
Óbvio que ninguém é obrigado a gostar de tudo. Isso seria no mínimo, uma grande falta de personalidade. Mas é preciso saber avaliar cada projeto, cada música, de uma maneira mais criteriosa e objetiva, fugindo do senso comum e do gosto pessoal, na medida do possível.
Não é preciso ser fã do Gui Boratto para reconhecer o valor de sua produção musical. Mas é preciso ser muito cabeça fechada para reduzir suas músicas a um mero “tric-tric”, apenas para citar um termo que eles  adoram utilizar para se referir igualmente ao Techno, Minimal, Deep e outras vertentes.
O mesmo acontece quando observamos os eventos de música eletrônica. A nossa cena é gigante, e todas as festas e movimentos têm um papel importante, formando uma espécie de ecossistema. Comparar XXXPerience ao Boom Festival (como os xiitas costumam fazer) é como comparar banana com tomate. Cada evento possui proposta e público específicos, desde os mais populares até os mais underground. E todos, desde que produzidos de maneira séria e com profissionalismo, podem agregar valor à cena.
Se você é freqüentador de festivais underground e se orgulha disso, meus parabéns. Mas lembre-se que há uma chance muito grande de que nem você, nem seus amigos estivessem aí nessa vida, se não tivessem antes conhecido a música eletrônica em uma festa bem mais 'mainstream'.
As festas mais populares tem o papel de apresentar a música eletrônica para o grande público. É um público mais casual, que escuta de tudo, inclusive música eletrônica. Muitos não conhecem, e nem querem conhecer a fundo os detalhes desse mundo. Assim como muitos de nós que vamos ao cinema, mas não conhecemos todos os atores de um filme nem nos interessamos sobre tudo o que acontece em seus bastidores. Várias das festas que freqüentamos também são, para muita gente, apenas uma fonte de entretenimento em um fim de semana. E não há nada de errado nisso.
Acontece que no meio desse púbico “casual”, sempre haverá uma parcela que se apaixonará pela música eletrônica e seguirá em frente, lendo, pesquisando, produzindo músicas, festas e todo o tipo de conteúdo, agregando valor à cena. Tudo está interligado.
Claro que isso não nos impede de termos sempre um olhar crítico com relação ao que acontece à nossa volta. O fato de uma XXXPerience ser uma rave ‘mainstream’, não lhe dá carta branca para fazer o que bem entender.
Da mesma forma que levantar a bandeira do underground não dá à nenhuma festa o direito de realizar um evento porco e  mal acabado.
É preciso ter senso crítico para identificar os objetivos de um DJ ou de uma festa, e avaliar seu sucesso a partir daí. Uma festa dita “comercial” pretende mesmo vender ingressos, bebidas, ter lucro e proporcionar um grande show. Já uma festa underground geralmente pretende levar cultura e novas sonoridades ao seu público, sem muita pirotecnia.
E adivinhem? Há espaço para todas elas. O fato é que quanto mais pudermos conhecer e apreciar as diversas faces da nossa cena, mais rica será nossa vivência nela.
A música eletrônica é bela e grande demais para ficarmos fechados em apenas um quadrado.

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